terça-feira, 9 de junho de 2015
Programa de formação de atores incorpora audiodescrição ao currículo
A partir de 30 de maio, o espetáculo Bença, do Bando de Teatro Olodum, passou a ser acessível a pessoas com deficiência visual através do recurso de audiodescrição.
O lançamento marca uma ação inédita no Brasil: a incorporação da audiodescrição como atividade sistematizada de um programa de formação de atores - todo
o processo foi realizado por integrantes da Universidade LIVRE de Teatro Vila Velha. A peça Bença permanece em cartaz de sexta a domingo, até 14 de junho,
no Teatro Vila Velha, e a audiodescrição é oferecida ao público sempre aos sábados (20h) e domingos (19h).
Espetáculo Bença
"Fazer a audiodescrição de Bença foi um desafio. Sabíamos que seria um trabalho bastante complexo, por se tratar de um espetáculo/instalação, com linguagem
não linear e com vinte atores contracenando entre si e com imagens em vídeo", conta Iracema Vilaronga, Mestre em Educação e Contemporaneidade e integrante
da LIVRE que coordenou equipe com outros quatro atores do programa de formação. Durante cerca de um mês, o grupo trabalhou nas diferentes etapas necessárias
para audiodescrever uma peça, entre elas o estudo do roteiro original, acompanhamento de ensaios, elaboração do roteiro audiodescritivo e, por fim, teste
e execução.
Impactos na cena
Incorporar a audiodescrição como atividade sistematizada de um programa de formação de atores é uma ação inédita no país e tem mostrado impactos positivos
no desempenho desses artistas. "Modificou a minha sensibilidade. Hoje, eu entro no palco e observo com muito mais cuidado o cenário, a movimentação, os
gestos, noto detalhes mínimos, que passavam despercebidos", afirma a atriz Amanda Cervilho, uma das responsáveis por elaborar o roteiro audiodescritivo
de Bença.
Os efeitos vão além do trabalho de ator, e passam a auxiliar também no processo de encenação. "A audiodescrição é um ótimo parâmetro para um encenador
saber se o que ele está fazendo, montando, realmente chega no entendimento no espectador. Ouvir a audiodescrição do espetáculo tem me auxiliado na objetividade
das imagens, das ações", conta o diretor Marcio Meirelles, que já se prepara para incorporar aos processos criativos a tradução para a Língua de sinais.
"O meu desejo é que os atores, enquanto se movimentem, falem também em Libras, se comuniquem nas duas línguas. Vamos testar isso e ver como funciona",
adianta.
Desafios
Desde 2014 o Teatro Vila Velha tem buscado oferecer o recurso de audiodescrição a suas produções. Esta ação começou através do Projeto Teatro para Sentir,
realizado pelo Coletivo Diveersa, que permitiu a tradução em libras e audiodescrição de três montagens - A Mulher como Campo de Batalha, Relato de uma
guerra que (não) acabou e Bonde dos Ratinhos. Mesmo após o fim do projeto, o Vila conseguiu manter a audiodescrição do infantil Bonde dos Ratinhos por
outras três temporadas, graças a parceria com aACESSU - empresa de consultoria e treinamento em acessibilidade - até incorporar, a partir de maio de 2015,
a atividade como parte de formação da Universidade LIVRE de Teatro Vila Velha.
Um dos maiores desafios tem sido a atração de pessoas com deficiência visual. Desacostumados a ter as salas de teatro preparadas para o seu acesso, o público
exige um grande esforço de mobilização. "O hábito da frequência de pessoas com deficiências só será adquirido quando os espaços culturais disponibilizarem
e divulgarem os recursos de acessibilidade, para que haja de fato a democratização da arte e dos produtos culturais e esse público tenha o teatro como
opção de lazer e cultura", chama a atenção Iracema Vilaronga.
SOBRE BENÇA:
Espetáculo/instalação que celebrou os vinte anos do Bando de Teatro Olodum, trata do respeito aos mais velhos e homenageia o tempo, a memória cultural
do povo negro e sua ancestralidade. Com linguagem contemporânea e não linear, o espetáculo trata a passagem do tempo como algo construtivo e enriquecedor.
Não um tempo cronológico que simplesmente passa, mas o tempo das coisas, ou seja, ele é circular e traz benefícios. Em cena, os 18 atores e dois músicos
contracenam entre si e com imagens em vídeo, projetadas em três telas. Aparecem Bule-Bule, Cacau do Pandeiro, D. Denir, Ebomi Cici, Makota Valdina e mãe
Hilza - figuras emblemáticas, e guardiãs da cultura afro-brasileira, que dão depoimentos sobre os temas da peça. Os movimentos vêm de rituais afro brasileiros
e a música trava um diálogo entre ritmos sagrados de tambores, vozes humanas e sons sampleados e manipulados digitalmente.
até 14 de junho // sextas e sábados: 20h // domingos: 19h
*sessões com audiodescrição apenas aos sábados e domingos
teatro vila velha // R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).
O Teatro Vila Velha é gerido pela Sol Movimento da Cena e conta com o patrocínio da Petrobras e com o apoio financeiro do Governo do Estado da Bahia através
do Fundo de Cultura.
Fonte: Blog do Teatro Vila Velha
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário