sexta-feira, 8 de maio de 2015
Tiffany, uma inédita medida de inclusão em quatro patas
Por enquanto, a presença de Tiffany na escola é temporária
“Que emoção, que emoção! Parece que o meu coração vai explodir”, dizia Gabriel Sprocatti, 9, enquanto a cadela Tiffany, 2, adentrava, como num desfile,
a sala de aula.
A euforia do garoto era a síntese da emoção que tomou conta da turma do quinto ano do ensino fundamental do colégio Dante Alighieri, em São Paulo, um dos
mais conceituados do país. O motivo? Há cerca de um mês, a instituição começou a preparar funcionários, alunos e pais para uma inédita medida de inclusão:
aceitar um cão treinado para ajudar uma criança com deficiência.
Tiffany é assistente de Ana Luiza Gaia Folino, 9, função que já exerce fora da escola desde o início do ano.
A menina tem uma doença metabólica rara e progressiva – mucopolissacaridose tipo 6 – que afeta parte de sua visão e de sua mobilidade e também a respiração,
em razão da falta de produção de uma enzima no corpo.
Semanalmente, ela precisa ir a um hospital para receber seis ampolas artificiais da substância no organismo. Cada unidade do remédio, que hoje é fornecido
pelo Estado, custa US$ 1.910 (o equivalente a cerca de R$ 6.100).
Tiffany, que nasceu no Brasil de uma ninhada com dez cães da raça golden retriever, está sendo treinada para auxiliar a menina a abrir portas, sair de
muvucas, descer escadas, pegar objetos no chão, carregar parte de seu material escolar e guiar seus passos, quando for necessário. O treinamento de cães
como ela pode levar até três anos e custar R$ 60 mil.
“Quem tem perguntas sobre o que pode e o que não pode fazer com a Tiffany?”, disse o adestrador Leonardo Ogata, da
ONG Cão Inclusão,
que foi à escola para explicar aos alunos que a cadela está ali para trabalhar e atender às necessidades de Ana, e não para brincar.
Dos 32 alunos da sala, 23 levantaram a mão. Do fundo da sala, uma menina loira de cabelos cacheados abriu a sessão, que durou uma hora: “Podemos tirar
fotos dela?”. Com a permissão do adestrador, um alvoroço se formou com a molecada toda atrás de seus telefones celulares para clicarem a cachorra.
“Agora não, gente. Ele falou de maneira genérica, não é para tirar fotos dentro da sala”, explicou a professora Cristhiane Ribeiro, que se declara “apaixonada”
por cães e entende a presença de Tiffany no colégio como “um passo importantíssimo para a inclusão escolar”.
“A experiência que os alunos tiveram hoje na sala de aula vai repercutir em toda a vida deles”, disse.
Na mesma sala de Ana, desde o maternal estudando no Dante, há uma menina com síndrome de Down, que entendeu que não pode acariciar nem alimentar a cadela
a qualquer hora, para não distraí-la da sua função.
“A Ana já fez diversas cirurgias reparadoras e precisa de extrema atenção médica. Se não tivesse acesso a todos esses cuidados, teria uma vida muito regrada”,
diz a mãe, Ana Paula Gaia, 38.
“Mas fazemos de tudo para que ela possa realizar o que uma criança comum faz, e isso passa pela independência que a Tiffany irá ajudá-la a ter. O apoio
do colégio está sendo incrível”.
“Ahhh, ela não vai vir todos os dias?”, perguntam os alunos, em coro.
Por enquanto, a presença de Tiffany na escola é temporária. Ela está se habituando ao espaço, e os estudantes estão aprendendo a conter o entusiasmo com
a presença da peluda. A previsão é que, em agosto, ela passe a frequentar as aulas diariamente.
“Informamos todos os pais da medida antecipadamente. As respostas foram extremamente positivas. Recebemos incontáveis mensagens”, afirma a assistente de
direção Vânia Barone.
Durante o tempo que passou na sala de aula, Tiffany teve comportamento exemplar: estava calma, obedecia aos comandos e ficava atenta e quieta, sempre ao
lado de Ana, que parecia orgulhosa com tanta aceitação e carinho por parte dos colegas.
(Fonte: Folha de São Paulo)
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